
EXERCÍCIOS DO OLHAR
Circunstâncias que aqui não interessará recapitular aproximaram-me da pintura de Deolinda Fonseca sobre a qual venho elaborando algumas crónicas que acompanham as suas exposições, ao ritmo das notícias que me chegam do reino da Dinamarca onde a sua obra se cumpre.
Quando as notícias chegam com imagens, é tempo de olhar a pintura e de perguntar, como se nos dirigíssemos a um destinatário indefinido, sem visar directamente este ou aquele trabalho: O que pedimos a uma pintura? O que podemos esperar de um objecto pictórico? O que é que a pintura nos proporciona? As perguntas são retóricas mas sublinham a presença central da pintura na dinâmica cultural do presente, a resistência de um modelo de comunicação artística exposto à rejeição e frequentemente condenado.
Nestas perguntas consolida-se a substância dialogante da pintura de Deolinda Fonseca e a de toda a pintura, interrogando, por sua vez, o espectador. (O diálogo é falso porque quem faz as perguntas não espera que lhe respondam, encontra ele próprio as respostas, se souber ver). Esta ideia de diálogo quer mostrar que a pintura, ainda que possa ser poesia, fala apenas pelos ecos de cor, pelas reverberações e cintilações de luz, pelos formalismos que reconhecemos das andanças no mundo da arte. Estas e outras comparações são caras a Deolinda Fonseca – a da pintura como música; a da tela preenchida como uma partitura; a da pintura como escrita.
A pintura subsiste como prática artística depois de um longuíssimo caminho percorrido, depois de muitas mortes anunciadas e de outras tantas ressurreições. A permanência deste modo de expressão é tanto mais difícil quanto entronca numa extensa tradição, numa gramática de conteúdo histórico e num cenário de figuras de culto que parecem sugerir que o destino da pintura já foi consumado e que negá-lo ou largá-lo seria certamente mais fácil.
Mas a pintura é do campo das dificuldades. Sobreviveu a esses períodos agitados de intervenção provocadora que insistiam em provar que as ideias tinham abandonado o território da pintura e que nela ficara apenas um rasto do saber fazer – com mão e gesto – e um vestígio do ver. Sobreviveu a esses momentos e acções de desafio que insistiam em provar que o pensamento autêntico se afastara do território da pintura e que nela ficara apenas um carácter artesanal, um objecto material, pronto a mudar de propriedade e a obter, nas mãos de um coleccionador, o correspondente estatuto decorativo. E, no entanto, a pintura resistiu.
Quando vejo a pintura de Deolinda Fonseca, que neste momento é aquela que me interessa, são estas e outras perguntas que assomam ao meu pensamento. Procuro detectar se continuarei a olhá-la com curiosidade e interesse, com vontade de desvendar o que a originou, com paciência para verificar os pequenos nadas que a fazem evoluir mas, fundamentalmente, procuro detectar a presença daquilo que quiseram extrair a esta linguagem: ideia e pensamento; expressão e sentido formal; representação, apresentação e presentificação; sugestão, transfiguração e abstracção; tensão e limites de um espaço; movimento ou ausência dele; beleza, tragédia, sentido de humor, sinais de vida, narrativas ou meras sensações, perguntas, hesitações; luz e obscuridade; diurnos e nocturnos; e o tempo (que, na pintura, são muitos tempos de duração e qualidade diferente: o da maturação e definição do conceito, o da execução, o de uma vida que na obra se reflecte, o da história da arte).
Quando observo a pintura de Deolinda Fonseca e encontro tudo isto, esta riqueza de sinais, esta densidade de propostas, esta espessura de actuação, faço-o a partir do que vejo, a partir dos indícios que a pintora me concede, ou seja, das obras que expõe. Ao dizer que são indícios, reconheço a exiguidade e a grandeza da pintura – exiguidade porque na sua superfície física cabe muito pouco; grandeza porque nesse pouco é todo um mundo que se insinua; exiguidade porque apenas nos é dado ver uma pequena parte do todo que é a pintura; grandeza porque sabemos que para chegar a essa pequena parte, muito ficou pelo caminho, muito foi deitado a perder, muito foi abandonado. Só alguém que se afirma num espaço e num tempo de liberdade é capaz de pintar sem o receio de tudo apagar para recomeçar o trabalho, para gerar surpresa.
A artista obriga-nos a um exercício constante de entrada e saída da pintura, a este movimento em que o nosso olhar parece esvair-se para os longes ou afundar-se na voragem de uma abertura de espaço e luz;
ou, pelo contrário, a este movimento em que o nosso olhar recua perante os elementos estruturais que empurram a tela na nossa direcção;
ou, ainda, a este movimento em que o nosso olhar paira à superfície cativado pela diluição de pinceladas e pelos gestos contraditórios.
A pintura de Deolinda Fonseca sintetiza-se nestes três movimentos que configuram três mundos: um que plana na própria pintura; outro que se afasta para lá; outro que existe para cá. Poderemos nós, observadores, perder-nos também pelo olhar?
A pergunta “Até quando a pintura?”, que aparecia, por outras palavras, no início deste texto interessará sempre porque na provocação que contém é que o olhar, o dos pintores e o dos observadores, se renova. É notável que continue a existir um domínio onde o olhar pode chegar e partir, fechar-se na pintura como um universo de valores próprios e abrir-se ao que a contém e a transcende, num exercício perpétuo.
Laura Castro
Setembro, 2007
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SÃO MAMEDE GALERIA DE ARTE
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